Introdução

Autor: Shmuel Gershon
Revisor: Marcelo Andrade

(…) a terra em si é de muito bons ares (…) Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo!

Em seu relatório de viagem sobre o Brasil, Pero Vaz de Caminha demonstrou bastante perspicácia para um turista em sua primeira visita. Caminha também notou algo mais sobre esta nova ‘ilha’, e afirmou que apesar de todas as terras e águas, o que o Brasil tem de melhor são seus habitantes: “o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me (…) esta gente.”

Eram os anos Mil e Quinhentos, e nos anos Dois Mil a situação pouco mudou. Trocam-se os ‘mancebos’ nativos pelos brasileiros modernos, e trocam-se os arcos e flechas por computadores, sistemas operacionais, Internet e aplicativos; o Brasil ainda está empenhado em avançar.

Esse avanço tecnológico cobre todas as áreas da informática moderna. Uma boa fração da população ainda não tem acesso a essas novidades, mas a indústria mantém-se atualizada e oferece serviços que competem no mercado internacional.

Um desses serviços, matéria que viu grande crescimento no Brasil nesta última década, é o Teste de Software.

Esta importante etapa no desenvolvimento de software tem como objetivo revelar informações sobre os aplicativos e diminuir a incerteza sobre sua qualidade e risco. A qualidade de um software é definida pelo valor que este tem para o cliente, e os testadores são os responsáveis por estudar o valor percebido pelo cliente e relacioná-lo às necessidades da empresa.

Hoje, mais de 1500 desses testadores de software se reúnem no fórum de discussão DFTestes, correspondendo-se através de mais de 300 mensagens ao mês. A que se deve tanto movimento?

Fóruns de discussão são o habitat natural dos testadores de software, pois “Testar é questionar um produto para descobrir informações sobre sua qualidade”, como define James Bach. Um testador passa sua jornada de trabalho fazendo perguntas; ao diretor, ao cliente, ao programador, a um colega, até mesmo perguntas ao aplicativo. Mas as questões mais difíceis, as “cabeludas” e filosóficas, as que precisam de uma visão objetiva e descompromissada, essas vão para o fórum, para os colegas virtuais.

Para quem não conhece a indústria de testes, isso pode parecer estranho… Que perguntas cabeludas podem haver sobre Testes de Software? Testar o software consiste em executar um programa e seguir passos predefinidos, não?

Essa falta de segurança na natureza do trabalho é uma das grandes dúvidas de nossa área. Algumas respostas estão disponíveis no capítulo “Testar é tão fácil que até minha mãe testaria” deste livro.

Pois este é um dos objetivos deste livro: expor o mundo dos Testes de Software ao leitor de diferente área.

Ao abordar os dilemas de forma aberta e baseando-se em comentários da comunidade, este livro é um ótimo retrato do cenário atual de Teste de Software no Brasil. Isso é, um grande auxílio para colaboradores e diretores, pois empresas e equipes precisam dessa compreenção para posicionar seu time de testadores de maneira eficiente. Por exemplo, todo administrador procura as melhores soluções para os problemas cobertos nos capítulos “Melhoria do Processo de Teste” e “Estimativas de Testes”. E em uma transição para metodologias ágeis, o papel do time de testes pode ser definido de diversas maneiras — de modo que os capítulos “Teste ágil, como implementar?” e “Utilização de Processos Ágeis no Teste de Software” sao úteis ao apresentar algumas das práticas da indústria.

Mas a educação de parceiros não é o único objetivo deste livro. O principal propósito é guiar o testador irresoluto, e ajudá-lo a levantar novas perguntas. As dúvidas são inúmeras, sejam relacionadas a carreira (ver capitulos “Certificações, valem a pena?” e “O Testador também necessita saber programar?”), ou relacionadas a eficácia no trabalho (“Quando automatizar?”, “Testar sem documentação é possível?” e “Quando documentar não é preciso?”).

Denota-se que o livro não visa responder em definitivo a nenhuma dessas questões, mas sim oferecer comentários de colegas de profissão experientes e referências online — na esperança que o leitor possa criar sua própria resposta que satisfaça seu contexto e necessidades.

Como escreve Michael Bolton, “Contrariamente ao folclore de nossa profissão, uma boa pergunta sobre testes não tem necessariamente uma resposta definitiva ou um resultado decisivo. Testes ou perguntas que apenas visam confirmar uma teoria predeterminada dificilmente revelam nova informação útil.”

Finalmente, por que não, fica o leitor convidado a compartilhar conosco suas próprias respostas e opiniões sobre os assuntos na lista DFTestes. É dessa contribuição que nossa comunidade deriva sua força, e todos são bem vindos!